Conflito no Mali coloca patrimônio da humanidade em risco

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(Reportagem originalmente publicada pela Carta Capital em 18/01/2013, disponível em http://www.cartacapital.com.br/cultura/conflito-no-mali-coloca-patrimonio-da-humanidade-em-risco)
Tomada pelas forças rebeldes, região de Tombuctu abriga 26 bibliotecas e 700 mil manuscritos dos séculos 13 a 20 em línguas árabes e africanas

Por Ana Paula Ferraz de Oliveira

“Um dos meus sonhos sempre foi ir a Tombuctu antes de morrer”, confessou Umberto Eco na obra Não Contem Com o Fim do Livro. O interesse do escritor e semiólogo italiano era visitar as bibliotecas da região, no centro do Mali, onde floresceu, antes do Renascimento na Europa, o maior núcleo acadêmico e comercial da África.

Desde a Idade Média, Tombuctu atraia estudantes que usavam livros como moeda de troca em busca de conhecimento dos sábios negros do Mali. O patrimônio cultural abriga mais de 700 mil manuscritos produzidos entre os séculos 13 e 20 em línguas árabes e africanas. Felizmente, Eco concretizou o seu desejo e conheceu o local, onde pôde constatar uma cultura oral determinada por livros. Mas quem ainda não teve a oportunidade de conhecer esse patrimônio cultural reconhecido pela Unesco corre o risco de nunca fazê-lo. Como uma miragem, esse oásis de conhecimento em pleno deserto do Saara está à beira do desaparecimento: Tombuctu está tomada pelas forças rebeldes e, na última segunda-feira 14, foi alvo de bombardeios franceses.

A região abriga, ao todo, 26 bibliotecas, espalhadas pelas cidades de Gao (alvo de bombardeios nessa segunda), Bamba, Rhrous, Ber e Tombuctu, capital da região, que concentra mais da metade das obras. Os manuscritos ali guardados versam sobre temas como matemática, química, física, ótica, astronomia, medicina, história, geografia, ciências islâmicas, leis e tratados, jurisprudência e entre outros assuntos. São, portanto, uma das mais importantes de partida para reflexão sobre as tradições escritas na África.

Antes do conflito na região, esse legado islâmico, intelectual, acadêmico e espiritual do continente já estava ameaçado por outros fatores. De acordo com o site da Timbuktu Educational Foundation (www.timbuktufoundation.org), que tem a custódia legal dos manuscritos e arrecada fundos para restaurar, preservar, traduzir e publicar os documentos, as páginas estão frágeis e se desintegram facilmente. De acordo com o grupo Tombouctou Manuscripts (www.tombouctoumanuscripts.org), da University of Cape Town (UCT), dedicado à pesquisa de aspectos da escrita e da leitura dos manuscritos, a preservação do patrimônio é “fundamental para modificar a imagem estereotipada do primitivo selvagem como a verdadeira representação da civilização africana”.

“É inexato imaginar um continente africano sem livros, como se livros tivessem sido a marca distintiva de nossa civilização”, afirmou o roteirista francês Jean-Claude Carrière, também em Não contém com o fim do livro.

O conflito na região levou a Unesco a fazer um apelo para que todas as forças militares no Mali façam esforços para proteger o patrimônio cultural de Tombuctu. Uma carta assinada pela diretora-geral da entidade, Irina Bokova, foi enviada às autoridades francesas e malinesas invocando a Convenção de Haia, de 1954. “O patrimônio cultural do Mali é uma joia cuja proteção é importante para toda a humanidade. Ele carrega a identidade e os valores de um povo. A atual intervenção militar deve proteger as pessoas e assegurar este patrimônio”, defendeu.

Antecipando as operações militares na região, a Unesco providenciou um levantamento das características topográficas dos monumentos históricos direcionado ao comando das tropas e brochuras individuais com informações para os soldados, com a intenção de prevenir mais danos.

Os alertas não são em vão. O conflito no Mali já provocou perdas relevantes para o patrimônio cultural de Tombuctu no ano passado. Em dezembro de 2012, ao menos três mausoléus foram danificados. Outras ondas de estragos foram registradas em julho do mesmo ano. Na ocasião, a Unesco organizou duas missões de emergência ao país e o Comitê do Patrimônio Mundial criou um fundo de emergência para reabilitação e resguardo dos bens culturais. “A devastação a esse tesouro inestimável é um crime contra o povo de Mali, que sempre mostrou grande tolerância pelos diferentes tipos de religião, crenças e práticas espirituais”, declarou, à época, Bokova.

Professor do Programa de Estudos Pós-Graduados em Educação Matemática da PUC-SP, Saddo Ag Almouloud leciona no Brasil mas nasceu numa pequena aldeia na região de Tombuctu chamada Karaukamba. Ele passa férias acadêmicas em Bamako, capital do Mali, que está “relativamente calma”, segundo revelou a Carta Capital. Ele conta que Tombuctu teve a primeira e a maior universidade islâmica da África negra. “Da produção dessa universidade nasceram várias bibliotecas cuja mais conhecida é Ahmed Baba”, explica. Almouloud se declara a favor da intervenção internacional e lamenta os danos aos monumentos já registrados. Ele não acredita, porém, que o patrimônio esteja ameaçado pelos bombardeios franceses, mas pela imprevisibilidade dos jihadistas. “Eles não têm nada de muçulmanos e já destruíram alguns monumentos em Tombuctu. Não acredito que estejam preocupados com esse patrimônio”, afirma.

“Fico profundamente triste pelo que está acontecendo com meu país, sou profundamente contra os jihadistas e completamente a favor da atual intervenção da francesa e internacional, pois o país está correndo perigo de sua existência como nação. Estou torcendo para que o Mali recupere sua estabilidade e paz”, disse.

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Editor produz em casa mais de 100 livros e uma indicação ao Jabuti

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Com Eduardo Lacerda, no quintal da Editora Patuá.

(Reportagem originalmente produzida para o site SampaCriativa, uma iniciativa do sistema Fiesp, Sesc e Senac.)

Editora independente em Sapopemba, na zonal leste de São Paulo, desenvolve modelo de negócio criativo.

POR ANA PAULA FERRAZ DE OLIVEIRA

Há um ano, Eduardo Lacerda dorme no sofá da sala. As quatro paredes de seu quarto, do chão ao teto, e também a sua cama são tomadas por livros. Resiste apenas, num canto, ostentosa e protetora, a imagem de Iemanjá. Os mais de 2 mil exemplares, que também ocupam o hall de entrada e uma parte da sala da casa dos seus pais, no bairro de Sapopemba, zona leste de São Paulo, fazem parte do estoque da Patuá, editora independente fundada em 2011 por ele e sua ex-sócia, Aline Rocha. O catálogo conta com 150 títulos de autores estreantes, em sua maioria, poetas.
Lacerda, que é filho de pai de santo, explica: patuá é um amuleto de origem africana. “Para muitos, é uma forma de proteção, mas, para a gente, é uma forma de enfrentamento”, afirma corajosamente o editor e poeta que, há três anos, optou por viver de literatura. Supersticiosamente ou não, os resultados da Patuá têm sido muito bons. Alguns dos escritores revelados pela editora têm conquistado destaques em grandes jornais. O livro Vário Som, da poetisa Elisa Andrade Buzzo, inclusive, concorre este ano ao prêmio Jabuti, o principal de literatura no país. “Temos conseguido tudo isso, mas não é o objetivo. O que eu quero é ter liberdade de fazer coisas como publicar o primeiro livro de um menino que eu acredito. Isso é ser uma editora independente”, pontua.

Agito literário

Os eventos de lançamento da Patuá acontecem semanalmente e também são acontecimentos, com encontro de dezenas de prosadores e poetas que trocam ideias, informações e, claro, fofocas. “Não é um movimento literário, mas é uma movimentação literária”, diz. Lacerda pretende manter o catalogo da Patuá vivo: “Quero que um livro publicado hoje ainda esteja circulando daqui a dez anos”. Porém ele admite que isso depende muito de como o autor trata sua obra. “Há pessoas que encaram a publicação apenas como uma aventura.” Atualmente, a Patuá recebe para avaliação cerca de cem originais por mês. “Não dá para ler tudo.”

Foram dois anos apenas para planejar a editora e conseguir o investimento inicial de R$ 5 mil. Uma das soluções encontradas para a redução de custos é o modelo de impressão de livros – tiragens pequenas, de apenas 100 exemplares. “Até poucos anos atrás, quem quisesse fazer um livro tinha que imprimir, no mínimo, 500 exemplares. Mas encontramos uma gráfica que faz 50 com o mesmo valor unitário de uma tiragem de mil”, conta.

Negócios

Em 2013, a Patuá saiu do vermelho e hoje Lacerda consegue se dedicar apenas à editora. Vende, em média, 50 livros por lançamento, ao custo que vai de R$ 25 a R$ 35 cada, de acordo com o acabamento. Todos os livros são comercializados pelo site. “Evitamos trabalhar com as livrarias, que descontam 50% do preço de capa, mais frete.” A Patuá precisa vender 50 livros para recuperar o investimento de 100 livros editados. “Um autor que vende muito bem ajuda a recuperar um autor que vende menos, e assim todos os livros são importantes. A gente não mede um autor pela quantidade de livros que vendeu”, conta.

Neste ano, a editora recebeu um prêmio de R$ 50 mil da Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo, que estão indo para a produção de 12 títulos com tiragem de 1.500 exemplares cada, os quais já começam a ser distribuídos para as bibliotecas. Para 2014, os planos são lançar de 10 a 15 livros de escritores inéditos por mês.

Paixão pela impressão

Lacerda se declara um apaixonado pela literatura e mais ainda pelos livros enquanto objeto. A paixão pela arte da impressão é antiga. “Na escola, pirei com o mimeógrafo e pedia para os professores para operar aquilo.” Foi também na escola que Lacerda começou sua experiência como editor, publicando o fanzine de uma banda da qual era fã. No curso de letras, na USP, que abandonou no último ano, ele lançou com Andréa Catrópa o jornal “O Casulo” para revelar poetas contemporâneos. “Eu queria saber quem era da minha idade e estava publicando. Meu contato com literatura foi sempre mais com os contemporâneos do que com os cânones”, diz. Durante um tempo em que passou desempregado, adquiriu, por sugestão dos pais, que mantêm uma oficina de roupas de umbanda nos fundos da casa, uma máquina de bordar. Hoje a máquina é usada para bordar sacolas que levam a reprodução da capa dos livros. Lacerda tem ainda um projeto de livro todo bordado. “Não deixa de ser uma outra forma de impressão.”

Fonte: Sampa CriAtiva